Como aplicar comunicação não violenta em conflitos familiares

Você conhece a comunicação não violenta (CNV)?


A Comunicação Não Violenta é uma técnica de comunicação criado pelo psicólogo norte americano Marshall Rosenberg a partir da década de 1960. A técnica traz uma transformação na forma de olharmos as pessoas e nós mesmos, para conseguirmos entender as situações de outro modo.


Não se trata de uma nova forma de comunicação, ou de uma fala em tom manso, ou baixo. A ideia é transformar o modo como encaramos aquele conflito.


Muitas vezes estamos falando a mesma coisa que o outro, mas parece que estamos falando em línguas opostas.


Aplicação da CNV em conflitos familiares


Ao pesquisar sobre o tema, é fácil encontrar textos indicando a comunicação não violenta para manter a paz e a boa comunicação nos relacionamentos, especialmente nas relações amorosas. O que é muito importante e válido.


Porém, pouco se diz sobre técnicas de comunicação não violenta aplicável durante o fim do relacionamento, ou após fim.


Como podemos nos comunicar melhor com nossos ex-parceiros, especialmente quando questões como partilha de bens, guarda dos filhos e pensão ainda estão presentes na rotina do ex-casal?


Elencamos hipóteses e possibilidades de se utilizar os 4 passos desenvolvidos por Rosenberg para aprimorar a comunicação entre famílias constituídas por ex-casais e sua prole, que desejem manter uma boa comunicação, de forma mais eficaz, nas questões práticas do dia – a – dia.


Os passos podem ser utilizados durante a tentativa de conciliação ou mediação familiar em processo judicial ou extrajudicial, como podem ser aplicados para situações rotineiras, prevenindo conflitos.






1º passo – Observar sem julgar


Observar é olhar para a situação de uma forma neutra, com atenção, interesse, sem fazer julgamentos, guardando sua opinião para si ou para expressá-la de modo específico no momento e contexto apropriados.


Primeiramente, observamos e analisamos o que realmente podemos extrair de interessante e enriquecedor de determinado contexto. A observação tem que ser totalmente compatível com a realidade, 100% fiel à ela.


Talvez esse seja o passo seja o mais difícil e, por isso, é o mais importante.


Observar as questões do ex-parceiro sem julgamentos, sem elaborar juízo de valor daquilo que se vê. Quando julgamos ou condenamos alguma ação estamos olhando com as nossas próprias projeções, o que nos impede de ver inteiramente.


Exemplo prático:


Dando um exemplo prático, um casal já separado e com filhos ainda crianças, precisa definir a guarda dos filhos.


Quando uma das partes manifesta interesse pela guarda compartilhada e outra parte se manifesta no sentido de guarda unilateral.


O primeiro olhar da parte contrária é avaliar o posicionamento do outro analisando as questões que os levaram até aquele momento.


Então poderia fazer um juízo de valor daquela opção pensando nos motivos que levaram à separação, nos conflitos que tiveram até ali e até na rotina que ambos levam enquanto genitores e educadores daquela prole.


Sabemos que é difícil, mas também é muito difícil nos relacionamentos em que os conflitos acontecem violentamente.


Não é um exercício fácil...


Nossa sugestão aqui, é que nesse primeiro momento, as partes olhem para a opção do outro tentando filtrar todos os julgamentos e visualizem apenas o caso concreto, que no nosso exemplo é a definição da guarda. Isso facilitará o encontro de uma opção viável para ambos.


Falas como: “você sempre faz isso” ou “você nunca faz isso” tendem a ser incompatíveis com a realidade, afinal, SEMPRE teria que ser 100% das vezes.


Como seria essa comunicação?


Ainda no exemplo do nosso casal fictício definindo a guarda dos filhos, no momento da visita, o invés de dizer: Você sempre atrasa.


Melhor dizer: Nas últimas 3 vezes que combinamos um horário, você chegou 30 minutos depois.


Lembrem-se: observar é descrever o que aconteceu, exatamente como aconteceu, sem julgar.


2º passo - Identificar sentimentos


Não é tarefa fácil desenvolver um vocabulário de sentimentos para nos expressar de forma clara e específica quanto às emoções sentidas em determinadas conversas.


A nossa cultura como também conceitos religiosos provocam um bloqueio psicológico, que resulta na ocultação de diversos sentimentos.


Identificar e dar nomes às nossas emoções e às emoções do outro, distinguindo sentimentos dos pensamentos, é muito importante para a CNV.


É fundamental aprender a identificar nossos sentimentos para saber como lidar com eles.


Esse segundo passo é muito importante para que cada parte consiga fluir bem na mediação daquele conflito. Então nomear os sentimentos que perpassam aquela situação também pode facilitar a resolução consensual do conflito.


Mantendo o exemplo da definição da guarda.


Quando uma parte indica uma definição contrária daquela que eu esperava, como eu me sinto.

Identificar e conseguir expressar sentimentos de forma não violenta facilita a sensação de empatia que poderá nortear aquele outros futuros acordos.


Sentimentos e Pseudo-sentimentos


Lembrando que é diferente falarmos sobre SENTIMENTOS e PSEUDO-SENTIMENTOS


O que não são sentimentos:

- Me sinto deixado de lado

- Me sinto julgada

- Me sinto abandonado

- Me sinto injustiçado


Essas sensação pressupõe que o outro julgou, abandonou, foi injusto.


O que são sentimentos:

- Me sinto sozinha

- Me sinto triste

- Me sinto angustiado

- Me sinto com raiva


E é nesse sentido que precisamos identificar e nos comunicar com o outro.


3º passo –Reconhecer e assumir as necessidades


Os seres humanos conectam-se através das necessidades. Aqui está a chave da CNV.


É saber reconhecer a necessidade que cada pessoa tem e que está escondida atrás de cada sentimento, de cada fala, de cada atitude tomada, para construir uma comunicação mais equilibrada e empática.


Assim, quando as necessidades são identificadas, e cada pessoa se responsabiliza pelos seus sentimentos, consegue-se estabelecer uma conexão com si próprio e com os outros, conscientizando-se de que as atitudes e falas das pessoas podem estimular nossos sentimentos, mas não ser a causa deles.


Somos nós que escolhemos a maneira como queremos receber o que as outras pessoas estão fazendo e falando sobre nós.


Pensando nosso exemplo


É importante que cada parte explique quais os motivos o levaram a propor aquele modo de guarda, quais as necessidade que pensa que serão cumpridas, e quais os compromissos que consegue assumir a partir disso.


Necessidades possíveis:

- Compreensão

- Apoio

- Tranquilidade

- Segurança

- Calma

- Respeito

- Troca

- Carinho

- Relaxamento


4º passo - Fazer um Pedido:


Quando conseguimos expressar aquilo que observamos, sentimos e necessitamos, fazemos então um pedido de forma clara e objetiva com o desejo de satisfazer nossas necessidades.


Quando alguém se comunica de forma violenta, com julgamentos e críticas, a outra parte tende a se proteger usando o contra-ataque e utilizando a mesma comunicação violenta que foi iniciada.


Assim, traduza as palavras que estão sendo direcionadas a você, por meio dos sentimentos e das necessidades, para não interpretá-las em um primeiro momento como um ataque.


Retomando o exemplo


O pedido seria para que a outra parte olhasse para a situação e considerasse mudar de posicionamento quanto a forma de guarda.


O pedido dever ser SIMPLES e objetivo, lembrando que um pedido não pode ser uma exigência. É possível que a resposta seja sim ou não.


Nesse caso, é possível que ambos entrem em acordo alinhem as expectativas para definição da guarda de forma mais resolutiva e eficiente.


Exemplo:

- Você poderia conversar em um tom mais baixo?

- Você poderia combinar um horário e chegar no horário marcado?

- Você poderia deixar que eu passasse os sábados até as 17h com nosso filho?

- Você poderia vir buscá-lo mais cedo no domingo?

- Será que poderíamos jantar juntos 1x por mês para ele ter essa experiência?


Destacamos que no exemplo relatado superficialmente não estamos indicando nenhuma resposta certa ou errada, cada família tem um forma de organização que melhor se adeque ao caso concreto.


Essas ferramentas podem ser utilizadas tanto pelas partes, ou seja, famílias passando por um conflito ou rompimento, e que precisam definir questões práticas para dar continuidade a vida familiar, tanto pelos advogados, servidores, conciliadores e mediadores que atuam com essas situações.


Observação, empatia, reconhecimento e um pedido claro, pode possibilitar um acordo bem sucedido.


Esse texto foi escrito em parceria com a psicóloga Luiza Domingues que estuda e trabalha com CNV. Para saber mais acesse.


Se tiver dúvidas ou sugestões de como podemos utilizar a CNV na atuação em direito de família escreve nos comentários ou me envie por email direitohumanizado@luanabruzasco.com


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