Carta de uma mãe em luto

Relato de uma mãe que sofreu um aborto espontâneo.





"Durante o mês de maio, falamos muito das mães, o quanto elas se doam por nós, o quanto de amor elas dispõem, e Sim, isso é verdade!


Muitas mães se anulam pelo “bem estar” dos filhos e essa é uma realidade muito presente, mas não vou entrar nessa questão, hoje quero falar da minha experiência, do que eu vivi no final de 2020, um ano que trouxe a todEs muitas dores.


Sou mãe de uma criança que não nasceu, eu tive, como muitas mulheres a gestação interrompida, um aborto espontâneo.


Muitas frases me foram ditas, como, “foi melhor assim” ou o clássico “seja forte”, como se a força fosse intrínseca. Essas frases só me mostraram o quanto essa dor é solitária, como o sofrimento não nos é permitido. O aborto se transforma quase em um fenômeno invisível, porquê só você sente.


No processo do aborto, ficamos tão vulneráveis com a perda e, infelizmente nem sempre somos atendidas por profissionais que priorizam o atendimento humanizado.


No meu caso, não fui respeitada pelos profissionais de saúde que me atenderam, fiquei uma semana em processo de aborto, além da dor externa senti uma dor interna imensurável, não me explicaram o que estava acontecendo e nem as possibilidades, apenas que a gestação não era viável e a cada dois dias realizava exame para saber se o feto havia expelido.


No último dia o exame comprovou que havia expelido e não seria necessário outro tipo de procedimento, recebi um atestado médico de meio período e o período restante eu faltei no trabalho, no dia seguinte retornei “normalmente”, com dores e raiva, raiva pela perda, pelo atendimento que recebi e muita raiva de mim que não briguei por um atendimento melhor. Este deveria ser uma regra né?


A questão é, quais eram os meus direitos?


Qual deveria ser o procedimento da equipe de saúde?


Eu teria condições em trabalhar normalmente durante o processo que durou uma semana e no dia seguinte?


Eu tenho a resposta apenas para a última, não e não, não havia a mínima condição emocional e física para trabalhar, tive que por minhas dores de lado para lidar com a demanda de trabalho, afinal eu tinha responsabilidades a cumprir.


Aproveitando, gostaria de agradecer a uma colega de trabalho (que se tornou uma amiga) que me acolheu, me abraçou e assumiu algumas responsabilidades na empresa para me ajudar. Obrigada Natalia.


Devemos saber sobre nossos direitos para que no momento de vulnerabilidade, você e sua rede de apoio possa também reivindicá-los por você."


Vanessa Rossato


Entenda os direitos da mãe:


Muitas mulheres passam pelo luto de uma gravidez que não se concluiu, infelizmente as questões relativas ao cuidado com essas mulheres são invisibilizadas, não existem muitas informações sobre procedimentos, sobre os direitos que devem ser garantidos, tampouco, sobre o processo de luto.


Direitos Trabalhistas:


Afastamento remunerado por 2 semanas


O art. 395 da CLT prevê que em caso de aborto não criminoso, comprovado por atestado médico oficial, a mulher terá direito a um repouso remunerado de 2 (duas) semanas, tendo direito também à estabilidade no emprego por duas semanas.


Diferença entre aborto espontâneo e parto antecipado:


Considera-se aborto espontâneo a interrupção da gestação até 22 semanas. A partir da 23a semana de gestação, entende-se que se trata de parto antecipado, ainda que de natimorto (quando a criança nasce sem vida), comprovada por atestado médico.


E nesse caso a mulher terá direito a 120 (cento e vinte) dias de salário maternidade, conforme o 93 artigo 93 , § 4º , do Decreto 3.048 /99, e à estabilidade no emprego.


Em todos os casos o atestado médico será muito importante para comprovação do ocorrido.


Para saber mais clique aqui.


Violência Obstétrica:


Além das questões trabalhistas, é comum mulheres que passam por situações como essa sofrerem algum tipo de violência obstétrica. Infelizmente, no Brasil, 1 a cada 4 mulheres vivenciaram alguma situação assim, que vão desde recusa ao atendimento, intervenções e procedimentos médicos desnecessários, violação ao direito de acompanhante, agressões verbais, entre outras.


Para entender melhor o que é violência obstétrica clique aqui.


Se você passou por alguma das situações descritas, é importante consultar uma advogada e entender seus direitos.


Compartilhe esse conteúdo com que pode se beneficiar dele.


Agradeço à Vanessa pela coragem de expor sua vivência de forma tão forte. Com certeza é um relato que poderá ajudar e acolher outras mulheres.


Seguimos juntas.


Luana.







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